CONTOS

OLVIDADO

O dia amanheceu da maneira como havia de ser, comum. A rotina é um fardo que a maioria das pessoas carregará para o resto da vida, com alguns poucos momentos especiais entre a normalidade usual da vida. Nada de errado nessa constância para grande parte das pessoas, mas não para todos, não para ele.

O relógio não despertou e a luz que adentrava pela janela indicava que estava atrasado para mais um dia igual. Levantou devagar, tomou uma ducha gelada, se trocou e saiu. Não estava muito preocupado em chegar no horário, tudo estava bem encaminhado no escritório; tinha conquistado um lugar de destaque na empresa depois de anos de trabalho, com muito suor e sangue derramados; seu nome foi citado em todos os grandes jornais e meios de comunicação na última semana; ele era o homem da vez: o novo presidente da maior empresa de tecnologia do mundo, o rei do mundo digital, o soberano tecnológico. Por sinal odiava esta última alcunha; não condizia com seu jeito pacato e culto de ser. Apesar de toda algazarra que o rondava, não estava tão empolgado quanto deveria estar. Chegou ao topo e, em pouco tempo seria um dos homens mais ricos do mundo, mas isso não parecia importar. Se sentia refém da rotina.

O elevador demorou para chegar no térreo. Estranhou não haver música durante o trajeto. O silêncio foi acolhedor; inclusive ia sugerir que tirassem de vez as melodias costumeiras, pensou consigo mesmo. Caminhou pelo longo saguão principal, que estava vazio. Realmente devia estar muito atrasado. O motorista particular já devia ter chegado há tempos.

– Bom dia, senhor. – disse o porteiro do prédio.
– Bom dia. Cadê o Marcos? – estranhou o homem.
– Quem, senhor?
– O porteiro da manhã… você deve ser novo aqui, deixa pra lá. Meu motorista já chegou?
– Não há ninguém lhe esperando, senhor.
– Estranho. Sem problemas, vou aproveitar pra ir caminhando hoje. Caso ele chegue, diga que já fui e que precisarei dele no final da tarde, na porta da empresa. Obrigado.
– Certamente, senhor. Tenha um ótimo dia.

O segurança abriu a porta para o “soberano” passar, com um movimento calmo sem dizer nada.

Diferente do saguão, a rua estava um caos; pessoas andando apressadamente para todos os lados. Ninguém se deu conta de quem ele era, apesar de ter o rosto estampado em todas as mídias na semana anterior; melhor assim, disse para si.

– A morte é um sono sem sonhos! – gritou o mendigo sentado na calçada em um papelão sujo.
– Você quase me matou de susto…
– Tem algo para me dar? Pode ser um país, uma cidade ou uma vila qualquer.
– Eu acho que não entendi.

Em um salto troncho e sem qualquer habilidade o mendigo ficou de pé, colocou a mão direita na barriga e com uma reverência se apresentou:

– Napoleão Bonaparte, seu humilde conquistador.
– Napoleão?! Certo… eu sou o rei da Rússia. – disse o homem em tom sarcástico.
– Eu odeio a Rússia! País gelado, sr. Soberano.
– Você me conhece, afinal das contas?!
– Claro, você é o senhor da Rússia, acabou de me dizer! Que loucura… mal te conheço e já sinto que somos quase íntimos.
– Faz sentido… Eu vou tomar um café na padaria da esquina, gostaria de me acompanhar, Napoleão? – convidou o Soberano. Era algo que jamais faria em dias normais, mas a saída da rotina veio como um presente inesperado, personificada em um senhor maluco morando na rua de sua casa.

O convite foi aceito de imediato e agradecido com toda pompa e circunstância que um grande Soberano merece. Em poucos passos chegaram em uma padaria chique que tinha como temática a sétima arte. Aproveitaram que o dia estava ensolarado para sentar nas mesas dispostas na calçada. Instantes após se acomodarem uma garçonete os abordou com extrema educação.

– Bom dia senhores! Sejam bem-vindos ao Império da Sétima Arte. Meu nome é Cleópatra e hoje serei a garçonete de vocês.
– Uau, que nome imponente! Me perdoe o mal jeito, mas o nome é seu mesmo ou faz parte da temática da padaria?
– É meu mesmo: Cleópatra, bela e única! – formalizou a apresentação com um gesto egipciano.
– Surpreendente! Conhecer um Napoleão e uma Cleópatra no mesmo dia, quais as chances de isso acontecer? Bom, senhorita Cleópatra, vou querer um capuccino e um croissant.
– Vou querer um pingado e um sonho, por favor. – disse Napoleão
– Não trabalhamos com sonhos, senhor, desculpe o inconveniente. Posso sugerir algo? Quem sabe uma bomba de chocolate pra adoçar o dia?
– Prefiro algo menos explosivo, se é que me entende! Me traga um pão de queijo mesmo. – pediu com um sorriso sarcástico e um piscar de olhos perspicaz.
Ginesthoi! cumpra-se! – exclamou saindo do campo de visão dos homens e entrando na padaria.

O café da manhã foi servido com requinte pela Cleópatra, apesar do cardápio simples. O sabor de tudo estava surreal, como descrevera Napoleão. Deleitaram-se sem ver a hora passar; conversaram sobre trivialidades; deram boas risadas. Quando o assunto acabou, o Soberano solicitou a conta para Cleópatra.

– Poderia nos trazer a conta, por favor? E se me permite um adendo, a senhorita tornou a manhã esplendorosa com sua educação e estonteante beleza, muitíssimo obrigado pelo excelente atendimento. A comida estava deliciosa! – disse o soberano de maneira cortês.
– Fico lisonjeada com tamanha cordialidade. Considere a conta paga, por conta da casa.
– De jeito nenhum, o dono não vai gostar e não quero lhe prejudicar.
– Eu sou a dona do Império, está decidido. – empinou o nariz, virou-se de costas teatralmente e adentrou o recinto, deixando os homens boquiabertos.
– Sr. Soberano, eu perderia a guerra por uma mulher dessas! Teria sido até mais fácil e, provavelmente, menos doloroso. – disse o mendigo.
– Mais respeito, Napoleão, mais respeito! – O Soberano bravejou. – Bom, acredito que é aqui que nos separamos, preciso ir para o trabalho e o senhor deve ter coisas importantes para tratar. Antes de partir, o senhor saberia me dizer onde há uma banca de jornal aqui perto?
– Tenho mais medo de três jornais do que de cem baionetas. Mas para todos os efeitos, no próximo quarteirão vai encontrar uma. – respondeu apontando a direção que o Soberano devia seguir. – E muito obrigado pelo café, fico te devendo uma. – terminou a prosa já se afastando.

De fato havia uma banca de jornal no próximo quarteirão. Não era nada convencional. Totalmente fora dos padrões. Era enorme, quase um monumento, com arabescos talhados em madeira e gôndolas que se exibiam aos transeuntes, apresentando livros, revista e jornais. Apesar de convidativa, estava vazia. Não havia ninguém sequer olhando despretensiosamente, como de costume.

– Bom dia, gostaria de um jornal. – disse o Soberano apontando para uma pilha que se encontrava ao lado do caixa.
– Que o papel fale e que a língua se cale. Um jornal saindo para vossa senhoria. – disse o jornaleiro.
– Obrigado. O movimento anda lento por essas bandas?
– As pessoas andam pouco interessadas e cada vez menos interessantes ao meu ver. Penso que aquele que lê muito e anda muito, vê muito e sabe muito; infelizmente as coisas mudaram, pouco se lê ultimamente, por consequência o conhecimento anda defasado.
– Concordo em partes. Hoje está sendo um dia atípico e nem passou do meio da manhã: conheci duas pessoas realmente interessantes logo cedo… e quanto à leitura… bom, smartphones, internet e todos os apetrechos tecnológicos, você sabe… ajudam, mas atrapalham… entendo um pouco sobre o assunto. – disse piscando para o jornaleiro que pareceu não entender o gesto.
– Fico feliz que seu dia esteja sendo atípico desta maneira, te invejo por isso. Já por estas terras, a monotonia que permeia meu ser certamente poderia matar, se fosse em outra ocasião, certamente.
–  E não sonha com outra atividade? Ainda há tempo de mudar.
–  O sonho é o alívio das misérias dos que as têm acordados. Sabe, contento-me com pouco, mas desejo muito. Nesta nossa realidade os livros suprem grande parte das minhas aspirações.
– Se lhe serve de consolo, dentre as três pessoas que conheci hoje, é de longe a mais interessante! – exclamou o Soberano.
– O louvor vale pela pessoa que o dá. Não o conheço, mas gostei de ti. O jornal foi pago com elogio. – disse o jornaleiro.
– Fico muito agradecido. Voltarei novamente e nas próximas vezes me deixará pagar, combinado? Como devo te chamar?
– As pessoas me chamam de Cervantes, mas como és meu amigo contemporâneo, me chame de Miguel.

Despediram-se rapidamente e o Soberano continuou seu caminho até o trabalho. Não estava tão longe da empresa; porventura isso foi uma das prioridades ao escolher o apartamento no qual morava. Odiava o trânsito caótico e só ia de carro para o trabalho por conta da segurança. Hoje percebeu o quanto estava perdendo ao ir para o trabalho trancafiado dentro de um automóvel.

A porta da empresa sempre aberta era um dos diferenciais exigidos por ele; todos eram bem-vindos. Passou direto pela recepção fazendo um aceno de bom dia para todos, mostrou seu crachá para o segurança e foi para o hall onde se encontravam os elevadores. Entrou no primeiro que chegou e apertou o botão rumo ao último andar. Dentro havia uma moça trajando um terninho chique e um crachá com nome: A. Earhart.

– Bom dia, senhorita.
– Olá. Dia lindo hoje, não?! O céu está radiante. – disse ela puxando assunto.
– Certamente. Dia lindo e com muitas peripécias vivenciadas logo pela manhã.
– Uma aventura só por si já tem valor, quem dirá muitas. Aliás, acredito que os imprevistos parecem atrair os aventureiros. Ou seria o contrário?! – piscou para o Soberano.
– Nunca me senti um aventureiro na verdade; jamais ousei viver algo que eu não tivesse total controle ou pelo menos uma ideia do resultado final. Ainda assim não me faltou coragem pra reclamar da rotina… desculpe o devaneio, estou um pouco filosófico hoje.
– Todos temos oceanos para sobrevoar, desde que tenhamos coragem para fazer isso. É inconsequência? Talvez… Mas o que os sonhos sabem sobre limites? – Deu de ombros na mesma hora que o elevador parou no vigésimo quinto andar. A moça então desceu se despedindo brevemente.
– Tenha um bom dia, senhor.
– A senhorita também. Por curiosidade, a letra “A” abreviada no seu crachá, seria de…?
– De Amelia.

A porta do elevador fechou separando os dois. Em segundos chegou ao seu destino. Assim que a porta se abriu percebeu que a secretária do andar não estava na mesa, como era de praxe; achou estranho, mas continuou devagar pelo corredor em direção a sua sala. As demais dependências estavam fechadas, provavelmente seus funcionários estavam em reunião, pensou consigo. A sala da vice-presidência estava aberta mas não havia ninguém dentro. Finalmente chegou à porta da presidência que estava entreaberta, da maneira como a deixou no dia anterior. Empurrou-a devagar e logo de cara viu que havia uma pessoa sentada em sua cadeira.

– Olá, quem é você? Acredito que essa cadeira me pertence. – disse o Soberano calmamente.
– Pertence a quem vence: veni, vidi, vici. Eu sou César. – disse o homem levantando-se imponente.
– César? Júlio César? Jura?! – Começou a rir sozinho enquanto batia palmas – Excelente, envolvente… que brincadeira excepcional, agora tudo se encaixa: primeiro o motorista não apareceu, depois conheci um Napoleão mendigo, uma Cleópatra…
– CLEÓPATRA?! De onde você conhece a minha esposa? – César foi visceral batendo na mesa com uma mão e apontando para o retrato de sua mulher com a outra.
– No café da manhã… ela me serviu… muito elegante, deliciosa… digo… a comida – gaguejou tamanho o susto que tomou com os gritos de César.
– Como se atreve? Vir aqui e falar da minha amada deste modo. Retire-se imediatamente da minha frente! Em outras primaveras um mero sinal meu e estaria tudo acabado para você. – gritou César exaltadamente com os olhos semicerrados de raiva.
– Espera! Eu sou o presidente da Rome Technology! Como ousa falar comigo dessa maneira? Retire-se você da minha empresa. Agora!  – o Soberano se recompôs, desafiando César e encarando-o com o peito estufado.
Alea jacta est! A sorte está lançada!

César olhava fixamente para o Soberano enquanto pedia pelo telefone que os seguranças subissem e retirassem o invasor de sua sala e posteriormente do prédio. Todo o procedimento foi rápido, truculento e prontamente obedecido.

Jogado literalmente na sarjeta o Soberano não estava entendendo absolutamente nada. Foi machucado e teve as vestes rasgadas; sentia-se desamparado; não encontrava um rosto amigo sequer; as pessoas passavam e não olhavam para ele; chegou a chorar por um tempo. Jamais em sua vida havia sido tratado de maneira tão desumana. Demorou para recuperar as forças, levantar e começar a andar rumo ao único lugar que se sentiria bem neste momento: sua casa. A volta para sua morada pareceu muito mais longa e demorada do que a ida.

Assim que virou a esquina viu que Napoleão estava sentado em seu papelão, coçando a orelha de modo despreocupado. O olhar dos dois se encontrou de longe e assim que o mendigo percebeu que o seu novo amigo se aproximava, acenou para o mesmo, moveu-se para o lado deixando livre um cantinho em seu papelão para que o Soberano pudesse sentar.

– Dia difícil, senhor? – perguntou Napoleão olhando as vestes rasgadas do amigo.
– Você não faz ideia! Está tudo muito confuso, não estou entendendo absolutamente nada. Parece que estou sonhando. Ou seria um pesadelo?! – disse o Soberano enquanto se sentava ao lado do Napoleão.
– A morte é um sono sem sonhos e a existência é mais uma maldição que um bem!

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Daniel Messias Gonçalves

 

PSICOTICOTERAPEUTA

– Socorro!

O grito abafado ecoou por um breve período, até se perder no espaço da sala no qual se encontrava. Não houve resposta nos primeiros dias; na verdade não sabia quanto tempo levou até que alguém respondesse; a luz clara ofuscava a visão e a percepção da realidade; as paredes estavam cuidadosamente pintadas e eram impecavelmente brancas; o piso de azulejo parecia um espelho de tão cintilante; havia apenas uma porta de metal na sala, com um cano à sua esquerda e uma caixa de som à sua direita. Do lado de fora era possível ouvir um gotejar ininterrupto; no começo, o som que as gotas provocavam era quase que imperceptível, mas conforme a ansiedade aumentava, o estampido se tornava mais audível, ressoando como batidas de tambor: tum, tuM, tUM, TUM. Era enlouquecedor.

– Socorro! – tentou novamente pedir auxílio.
– Pare de gritar. Ninguém, além de mim, vai ouvir você aqui. – respondeu a voz calma que saía pela caixa de som presa à parede.
– Minha família tem dinheiro, só não me machuque, por favor.
– Meu caro, não quero seu dinheiro. Todo mundo sempre pensa que a questão é dinheiro… não entendem o conceito da tortura.
– Quem é você? O que você quer de mim? Socorro!
– Já falei pra parar de gritar.

Houve silêncio; as gotas ao fundo também pararam por um breve intervalo; um longo barulho de descarga; novamente as gotas caindo.

– Desculpe, estava no banheiro. Onde paramos? – disse uma voz bem-disposta.
– Você está animado? Como você pode ficar assim? Olha o que está fazendo comigo!
– Me desculpe se me fiz entender errado. Não estou animado… talvez um pouco, mas também estou ansioso. Quero que saiba que me dói fazer o que estou fazendo, mas você precisa compreender o que me tornei, e a razão disso tudo. Aliás, devo lhe dizer que apesar de parecer algo ruim,  existe um lado positivo: você é o último da minha lista e eu estou mais eficiente, o que significa que você deve se redimir e chegar ao fim antes dos outros. Não é ótimo isso?! Eu acho libertador.
– Como assim chegar ao fim? Você vai me matar? Se eu sair daqui acabo com a sua raça, desgraçado! – gritou o homem.
– Quem você pensa que eu sou? Matar? Ninguém falou em matar, sou uma pessoa civilizada, tenho aversão a esse tipo de violência. E, por favor, não me ameace. Já não basta tudo o que me fez passar. – disse com uma voz desgostosa e pausada.
–  Espera! O que eu te fiz passar? Eu conheço você?
– Há anos que não nos víamos, desde a época da escola, até você entrar alguns meses atrás na lanchonete em que trabalho. Quando te vi não acreditei: a pessoa que mais me fez sofrer na infância. Fiquei esperando que me reconhecesse, mas não aconteceu. Dia após dia você entrou e saiu sem sequer me notar. Foi como se eu não existisse. Depois de todo sofrimento que passei em suas mãos e na dos outros, você sequer se lembrou de mim. O que sou hoje, aquilo que me tornei…
– Mas eu nem sei quem é você, seu lunático! – interrompeu o homem.
– Não atrapalhe minha performance, ensaiei bastante pra esse momento. Continuando: o que me tornei, em partes, é responsabilidade sua. Nunca o culpei de fato e sempre achei que você era ingênuo, assim como eu também era. Até o dia em que vi você humilhar uma pessoa na lanchonete, da mesma maneira que fazia comigo na infância. Então percebi que você é uma pessoa má. Foi neste momento que resolvi tomar uma atitude. Então comecei a te acompanhar de perto e descobri coisas bem interessantes…
– Espera, você me seguiu? Seu psicopata!
– Veja bem, tudo o que estou fazendo é para te ajudar a se tornar alguém melhor. Pense nisso como sendo uma terapia. O que acha de começarmos?
– Começar o que? Seu filho da puta, o que vai fazer comigo?
– Não adianta ficar agressivo! E, já que perguntou, vamos começar com ratos. Notei que é o seu maior medo, certo?

Um barulho pelo encanamento indicava que eles estavam a caminho. Pela intensidade do ruído, parecia que vários animais estavam a caminho, mas apenas dois apareceram: eram enormes, cinzas com rabo pelado. Pareciam bem famintos e assustados.

– Tira eles daqui… socorro. Sai de perto de mim! – disse chutando um dos animais, que bateu na parede, produzindo um barulho oco. O animal pareceu não se importar muito com o ocorrido e voltou à espreitar de perto o humano.
– Opa, esqueci de dizer as regras da brincadeira, falha minha, me perdoe. Regra número um: para cada animal machucado, mais dois entrarão na sala onde você está, portanto, não seria interessante você machucá-los. Regra número dois: caso ainda não tenha percebido, seus sapatos foram trocados por outros mais macios e besuntados com creme de carne. Devem estar bem apetitosos e, como deve saber, ratos comem praticamente qualquer coisa. A brincadeira consiste em deixar os ratos comerem os sapatos sem que você os tire do pé. Vamos trabalhar esse seu medo.

O desespero sentido pelo homem ao ver os ratos roendo seus tênis sem poder fazer nada durou poucos minutos, mas quando se está com pavor, o tempo perde seu valor real, deixando de fazer sentido. Os gritos ecoavam, o suor escorria em conjunto com o choro, acompanhado de soluços altos que vez ou outra sincronizavam com a música clássica que o torturador colocou para essa parte da sessão. Os animais estavam afoitos, devorando cada pedaço do calçado enquanto produziam pequenos guinchos de prazer. Parecia que não comiam há dias. O corpo robusto dos bichos estremecia a cada mordida, em concomitância com o pânico sentido pelo encarcerado.

Assim que as meias do torturado começaram a aparecer, os ratos pararam de morder e se afastaram cambaleando, até que finalmente entraram em um sono profundo. Tudo parecia bem calculado; o timing para os ratos dormirem antes que pudessem machucar o homem foi perfeito; a música parou assim que o segundo rato desmaiou.

– Bravo! Estupendo! Que espetáculo! E os animais, então? Eles entraram na cena. Simplesmente maravilhoso. Como se sente? – perguntou a voz entusiasmada pela caixa de som presa na parede.

Não houve resposta. Era possível ouvir somente um choro baixo e íntimo que aos poucos foi diminuindo até parar. O olhar de terror estava estampado na face do sequestrado.

– Converse comigo, homem. Preciso saber quando poderemos continuar, você é o protagonista disso tudo.
– Me deixe ir embora, por favor. Juro que serei uma pessoa boa. Eu sei que não sou bom, que machuco as pessoas, mas vou melhorar! É isso que quer ouvir? É por isso que estou aqui? Pra entender o mal que tenho feito com as pessoas? Eu entendi… por favor… – implorou o cativo.
– Mal começamos e já está implorando para ir embora?! Estou muito desapontado com você. Imaginava que se sairia melhor que os outros, já que era o mais forte e agressivo do seu grupo e se mostrava muito corajoso. Você era o líder, não era? De qualquer forma, tenho certeza que, quando se for, será uma pessoa melhor. E para todos os efeitos, não é isso que quero ouvir de você.
– Então o que quer ouvir de mim? Quer um pedido de desculpa? Me perdoe, por tudo que fiz, por todo mal que lhe causei.
– Não posso aceitar seu pedido de perdão, não agora. Sequer lembra quem sou. Muito bem… aparentemente está se sentindo um pouco melhor, então vamos prosseguir. Pelo que pesquisei você é bem seletivo e sistemático quando se trata de comida. Não prometo que sua próxima refeição será tão apetitosa quanto o tênis foi para os ratos, mas será bem intrigante. A regra consiste em comer o que eu lhe enviar sem vomitar. Caso regurgite, mandarei outros pratos até que consiga ingerir um inteiro, sem passar mal.

Na mesma hora em que parou de falar uma iguaria passou por debaixo da única porta da sala, em um vasilhame refinado. De longe era possível ver que a comida se mexia e exalava um cheiro desagradável. Já de perto veio a certeza que aquilo seria bem indigesto. As larvas dançavam sobre e no meio do sanduíche putrefato; as bordas esverdeadas indicavam que a comida estava estragada há dias. O homem vomitou de imediato, assim que bateu os olhos no lanche.

– Vou desconsiderar esse vômito, uma vez que ainda nem tocou no alimento. Vale ressaltar que adicionei ao lanche o mesmo molho de carne que coloquei nos seus sapatos, para facilitar a degustação. Se puder começar logo, eu agradeço.

Sabendo que não havia muito o que fazer e que estava à mercê do sequestrador, respirou fundo e pegou o lanche com as mãos. Encarou por uns segundo as larvas e empurrou para dentro do pão aquelas que tentavam fugir, para que não precisasse ficar olhando para elas. A primeira mordida foi indescritivelmente nojenta; sentiu o sabor amargo do pão e a crocância dos animais ao serem esmagados pelos dentes. O golfo subiu assim que o primeiro pedaço do lanche chegou ao estômago, mas conseguiu segurá-lo na boca e engolir novamente, deixando um gosto ácido na boca. Novamente respirou profundamente e deu a segunda, terceira, quarta mordida, mastigando o menos possível antes de engolir. Assim que chegou à metade do lanche a língua ficou dormente. Estranhou um pouco mas aproveitou para terminar a pesada refeição. Mesmo não sentindo o gosto, a mera imagem que lhe veio à mente, das larvas sendo mastigadas e engolidas, embrulhava o bucho. Foi a coisa mais asquerosa que já fez na vida. É algo que jamais esqueceria.

– Muito bem! Senti mais firmeza desta vez. Apesar de eu ter ajudado no processo mais uma vez ao colocar jambu no caldo de carne, você foi realmente bem. Eu mesmo não faria melhor. Parabéns! Como já disse antes, estou aqui para te ajudar e, como não quero que fique doente, o aconselho a tomar o antibiótico que estou enviando; a este você não é alérgico, não lhe fará mal.

Uma cartela do remédio passou sob a porta e foi prontamente tomado pelo homem. Estava com tanta ânsia que se dissesse uma única palavra naquele momento, ou se não mantivesse a respiração controlada, vomitaria todo o lanche.

– Agora que está devidamente alimentado e medicado, avancemos para mais uma brincadeira. O que você acabou de tomar, na verdade, foi um laxante bem forte e não antibiótico, digo… o antibiótico eu coloquei no molho de carne junto ao jambu, então você está seguro, de certo modo. Acredito que ainda não se perguntou como sei quando você terminou um desafio: na caixa de som há uma pequena câmera. Dá um tchauzinho pra mim, não tem mais ninguém aqui, me sinto sozinho… não?! Sem tchauzinho? Seu insensível. Ok… então as regras são as seguintes: você vai ficar de lado para a porta, sem nenhuma roupa e fará suas necessidades fisiológicas enquanto estou filmando. As imagens serão passadas, em privado, para as pessoas que você fez mal durante a infância e para algumas que descobri agora na sua vida adulta. Haverá um áudio explicando o motivo desta humilhação que você está passando, para que não tenham pena ou remorso ao compartilhar.  Se elas forem tão malvadas quanto você, o vídeo deve cair na internet em pouco tempo. Aliás, o laxante deve estar pra fazer efeito. Caso não queira se sujar, esta é uma boa hora pra tirar a roupa.
– Por favor, eu te imploro, não faça isso, não me exponha desta maneira, vai arruinar minha vida. – gritou em pânico.
– Como te expliquei, não tenho o dia todo e ainda estamos só na metade do processo. Há um cronograma a ser seguido.
– Chega, te suplico! Já entendi a mensagem, juro que serei uma pessoa boa, só me deixe em paz! Por favor…

Um alarme alto tocou e a porta de ferro se abriu automaticamente.

– Bingo! Era exatamente isso que eu queria ouvir, “me deixe em paz”. Essa foi a frase que eu mais falava a cada tortura psicológica que você e seus amigos me faziam passar. Tudo o que me tornei é graças a vocês, que nunca ouviram o meu rogo. Foram inúmeras as súplicas não atendidas, mas para provar que não sou tão psicótico quanto você, atenderei o seu clamor. Está livre para ir. O banheiro é a próxima porta à esquerda.

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Daniel Messias Gonçalves

FINIS LONGA, VITA BREVIS

A última memória que tinha era de luzes brancas incômodas, o suor quente que escorria pela têmpora, as pessoas correndo ao seu redor e um som mecânico constante e chato ao fundo; depois tudo ficou escuro.

A cabeça dói e a vista embaçada dificultam focar no ambiente ao seu redor. O chão é macio e pegajoso ao mesmo tempo. Um misto de calma e ansiedade permeiam seu ser, enquanto uma necessidade de seguir adiante toma conta de seus atos. Não parece estar no controle mas ao mesmo tempo sente que tudo lhe é permitido. Com um caminhar leve segue a única direção possível. Está em um corredor longo, que se perde no horizonte, com paredes estreladas. Há vários quadros decorando. Lembra muito a primeira casa que morou. Atrás dele não há nada, só a escuridão imaterial que o acompanha a cada passo. À frente a incerteza de onde iria chegar.

Sem pretensão, peregrina observando as pinturas. As primeiras trazem consigo sentimentos de euforia e plenitude, talvez por serem abstratas. A maioria parece muito uma com a outra, com pequenas diferenças de cor e tamanho dos traços. Tudo indica que foram pintadas pela mesma pessoa. Já as molduras se diferem muito e isso incomoda um pouco. Muitas artes lindas estão com moldura desgastadas e simples.

– Como algo tão bonito e sublime pode ser tratado com tamanho desprezo? – disse à si mesmo.

Aparentemente há muito à percorrer, então resolve parar para ver com apreço somente aquelas pinturas que realmente chamarem sua atenção. Acelera o passo e apenas olha de relance a grande maioria das obras. Percebe que conforme percorre o corredor, as  mesmas vão ficando menos abstratas e começam a ganhar formas mais concretas. A sua esquerda apresentou-se um quadro que retrata uma criança com uma pipa. Era a primeira pintura que representava algo tangível. Opta em fazer uma pausa para contemplar a obra. Gostava de empinar pipa, pensou consigo, mas deixou de fazer isso depois que atingiu certa idade. Deu de ombros, afinal de contas parou de fazer várias coisas que gostava quando amadureceu. Por alguns segundos ficou absorto olhando os detalhes das pinceladas e de como elas formavam cada elemento, quando uma voz atrás dele tirou sua concentração.

– Olha o que eu sei fazer! – disse o menino com uma bola dentro do quadro de moldura dourada.
– Quem é você? – disse o homem, assustado.
– Quem somos nós?
– Eu não sei, como posso saber. Quer dizer, eu sei quem eu sou, mas como posso saber quem é você?
– Não faz tanto tempo assim. Deveria lembrar! – indagou a criança.
– Lembrar do que?
– Você quer que eu te lembre o que você deve lembrar? Você é estranho.
– Olha como fala garoto. Nunca te ensinaram que deve respeitar os mais velhos?

Nessa hora o menino deu-lhe as costas e foi brincar com sua bola, sem se importar em continuar a prosa. Indignado com tamanha falta de respeito virou-se para o corredor e com passos largos tomou seu rumo. A tinta ganhava vida conforme seu caminho era traçado e algumas pessoas pintadas nos quadros o observavam, umas de maneira despretensiosa, enquanto outras acenavam ou tentavam chamar a atenção do visitante com algum diálogo.

– Ei, babaca! – chamou um adolescente de moicano e casaco de couro.
– Não é possível que todo mundo daqui seja mal educado.
– Você não pode passar correndo sem nos dar atenção. Tem gente esperando a vida inteira pela sua visita e você faz essa desfeita?
– O que vocês querem de mim?
– Como se tivesse algo pra oferecer, não se enxerga mesmo. Aliás, você mudou muito, tá estranho. Virou um idiota!
– De novo essa história de estranho… e como assim mudou muito? Eu nem te conheço.
– Além de idiota tem amnésia. Quer saber, segue seu rumo, você não tem mais jeito.

O adolescente no quadro colocou os fones de seu walkman nos ouvidos e ignorou totalmente a presença do visitante, que um pouco ressentido com a indiferença seguiu pelo corredor com a cabeça baixa. Não demorou muito até ser chamado por outra figura. Desta vez era um homem de meia idade, trajando terno preto risca de giz; parecia ser um executivo.

– O senhor pode me servir um café? Faz muito tempo que estou esperando já! – disso de forma brusca.
– Você sabe com quem está falando? Acha que sou seu empregado?
–  Só te pedi um café. Desculpe se lhe soou rude.
– Tudo bem, sem problema, mas precisa melhorar essa maneira de tratar os outros… e onde posso arrumar esse café, não vejo nenhum por perto.
– Só pedir no quadro de trás, que você passou sem sequer olhar.

O visitante virou-se para observar o quadro posterior a ele, e encontrou um jovem, um pouco mais novo que o executivo.

– Um café quentinho saindo para o senhor do quadro à frente. – disse o rapaz estendendo a mão com um xícara.
– Obrigado – agradeceu o visitante passando o café de um quadro para o outro.
– O senhor gostaria de um? Se fosse você aceitaria, acabei de fazer e além do mais, seu processo todo pode demorar.
– Que processo?
– Acho que ainda não percebeu o que está rolando, né?!
– Você morreu. Quer dizer, pelo menos está morto neste momento. – disse o executivo calmamente enquanto apreciava o café.
– Como assim? – indagou o visitante.
– Morreu, bateu as botas. No seu caso foi o carro… pegou o trocadilho? Mas relaxa, talvez você volte, tem uma galera lá embaixo tentando te ressuscitar. – falou de modo descontraído o rapaz.
– Meu Deus! Não é possível, mal aproveitei minha vida. E minha família, o que será dela?
– Ixi, começou a ladainha, não falei pra você?! Sabia que quando morrêssemos seria essa choradeira. Você traçou um caminho sem sonhos – alfinetou o rapaz piscando para o executivo.
– Já vai começar aquela mesma conversa, de que virei um chato e workaholic. Pode parar com isso! Tenho minhas obrigações.
– Eu também. Trabalho em uma cafeteria para pagar o faculdade e sobreviver. Mas você esqueceu que não é o dinheiro que nos impulsiona pra vida, são os sonhos.

A discussão parou quando os soluços do visitante começaram a ecoar pelo corredor. Ambas personas se entreolharam, deixaram as diferenças de lado e começaram a tentar acalmar o homem, que agora estava em posição fetal, deitado no chão.

– Não é o fim do mundo e de certo modo, nem o fim da vida. Pelos menos não da vida que você conhece. Daqui pra frente tudo será possível, a vida que terá nem se compara com…
– Ei, bico fechado! Se ele ainda não atravessou a porta ainda há chance, então não podemos falar o que vem a seguir. – o executivo interrompeu o barista.
– Como assim ainda há chance? Posso voltar à vida?
– Existe essa possibilidade. Se isso ocorrer caberá você decidir qual porta atravessar. – falou o executivo.

Mal o homem de meia idade terminou de falar,  duas portas se fizeram presente, uma de cada lado da parede. O visitante sabia o que fazer. Sem pestanejar levantou e escolheu o seu destino.

A claridade castigou seus olhos como se fosse a primeira vez que os usava; uma música agradável agraciou seus ouvidos; a temperatura estava muito agradável. Jurava que tinha escolhido a porta da vida.

Tudo estava perfeito demais para ser o mundo que já conhecia. Foi quando escutou uma porta abrindo e passos largos sendo dados no mesmo ambiente em que ele se encontrava. Os passos trouxeram consigo uma voz áspera que não se recordava, mas a conversa estava distante e não conseguiu distinguir as palavras.

– Boa tarde. Os resultados dos exames sairam.
– Qual é o quadro dele, doutor? – perguntou a esposa do moribundo.
– Está estável, mas o acidente provocou danos irreversíveis em uma parte do cérebro, mais especificamente no hipocampo e na área responsável pela imaginação.
– E essa área influência nas memórias dele? Ele se lembrará de mim, da família dele?
– Sim, lembrará de tudo anterior ao acidente. A questão é que a partir de agora a imaginação estará mais presente em seus pensamentos, como devaneios e em alguns casos, pode não saber diferenciar a realidade da ilusão…
– Olhe, ele parece estar recobrado a consciência. – a esposa disse de sobressalto, interrompendo o médico.
– Estou de volta! É uma nova chance! Tenho tanto pra contar, que experiência fantástica que tive! – exclamou alegre olhando para a esposa e para o médico.

O médico e esposa se entreolharam ressabiados enquanto o homem acamado os contemplava com um sorriso vesano estampado no rosto.

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Daniel Messias Gonçalves