OLVIDADO

O dia amanheceu da maneira como havia de ser, comum. A rotina é um fardo que a maioria das pessoas carregará para o resto da vida, com alguns poucos momentos especiais entre a normalidade usual da vida. Nada de errado nessa constância para grande parte das pessoas, mas não para todos, não para ele.

O relógio não despertou e a luz que adentrava pela janela indicava que estava atrasado para mais um dia igual. Levantou devagar, tomou uma ducha gelada, se trocou e saiu. Não estava muito preocupado em chegar no horário, tudo estava bem encaminhado no escritório; tinha conquistado um lugar de destaque na empresa depois de anos de trabalho, com muito suor e sangue derramados; seu nome foi citado em todos os grandes jornais e meios de comunicação na última semana; ele era o homem da vez: o novo presidente da maior empresa de tecnologia do mundo, o rei do mundo digital, o soberano tecnológico. Por sinal odiava esta última alcunha; não condizia com seu jeito pacato e culto de ser. Apesar de toda algazarra que o rondava, não estava tão empolgado quanto deveria estar. Chegou ao topo e, em pouco tempo seria um dos homens mais ricos do mundo, mas isso não parecia importar. Se sentia refém da rotina.

O elevador demorou para chegar no térreo. Estranhou não haver música durante o trajeto. O silêncio foi acolhedor; inclusive ia sugerir que tirassem de vez as melodias costumeiras, pensou consigo mesmo. Caminhou pelo longo saguão principal, que estava vazio. Realmente devia estar muito atrasado. O motorista particular já devia ter chegado há tempos.

– Bom dia, senhor. – disse o porteiro do prédio.
– Bom dia. Cadê o Marcos? – estranhou o homem.
– Quem, senhor?
– O porteiro da manhã… você deve ser novo aqui, deixa pra lá. Meu motorista já chegou?
– Não há ninguém lhe esperando, senhor.
– Estranho. Sem problemas, vou aproveitar pra ir caminhando hoje. Caso ele chegue, diga que já fui e que precisarei dele no final da tarde, na porta da empresa. Obrigado.
– Certamente, senhor. Tenha um ótimo dia.

O segurança abriu a porta para o “soberano” passar, com um movimento calmo sem dizer nada.

Diferente do saguão, a rua estava um caos; pessoas andando apressadamente para todos os lados. Ninguém se deu conta de quem ele era, apesar de ter o rosto estampado em todas as mídias na semana anterior; melhor assim, disse para si.

– A morte é um sono sem sonhos! – gritou o mendigo sentado na calçada em um papelão sujo.
– Você quase me matou de susto…
– Tem algo para me dar? Pode ser um país, uma cidade ou uma vila qualquer.
– Eu acho que não entendi.

Em um salto troncho e sem qualquer habilidade o mendigo ficou de pé, colocou a mão direita na barriga e com uma reverência se apresentou:

– Napoleão Bonaparte, seu humilde conquistador.
– Napoleão?! Certo… eu sou o rei da Rússia. – disse o homem em tom sarcástico.
– Eu odeio a Rússia! País gelado, sr. Soberano.
– Você me conhece, afinal das contas?!
– Claro, você é o senhor da Rússia, acabou de me dizer! Que loucura… mal te conheço e já sinto que somos quase íntimos.
– Faz sentido… Eu vou tomar um café na padaria da esquina, gostaria de me acompanhar, Napoleão? – convidou o Soberano. Era algo que jamais faria em dias normais, mas a saída da rotina veio como um presente inesperado, personificada em um senhor maluco morando na rua de sua casa.

O convite foi aceito de imediato e agradecido com toda pompa e circunstância que um grande Soberano merece. Em poucos passos chegaram em uma padaria chique que tinha como temática a sétima arte. Aproveitaram que o dia estava ensolarado para sentar nas mesas dispostas na calçada. Instantes após se acomodarem uma garçonete os abordou com extrema educação.

– Bom dia senhores! Sejam bem-vindos ao Império da Sétima Arte. Meu nome é Cleópatra e hoje serei a garçonete de vocês.
– Uau, que nome imponente! Me perdoe o mal jeito, mas o nome é seu mesmo ou faz parte da temática da padaria?
– É meu mesmo: Cleópatra, bela e única! – formalizou a apresentação com um gesto egipciano.
– Surpreendente! Conhecer um Napoleão e uma Cleópatra no mesmo dia, quais as chances de isso acontecer? Bom, senhorita Cleópatra, vou querer um capuccino e um croissant.
– Vou querer um pingado e um sonho, por favor. – disse Napoleão
– Não trabalhamos com sonhos, senhor, desculpe o inconveniente. Posso sugerir algo? Quem sabe uma bomba de chocolate pra adoçar o dia?
– Prefiro algo menos explosivo, se é que me entende! Me traga um pão de queijo mesmo. – pediu com um sorriso sarcástico e um piscar de olhos perspicaz.
Ginesthoi! cumpra-se! – exclamou saindo do campo de visão dos homens e entrando na padaria.

O café da manhã foi servido com requinte pela Cleópatra, apesar do cardápio simples. O sabor de tudo estava surreal, como descrevera Napoleão. Deleitaram-se sem ver a hora passar; conversaram sobre trivialidades; deram boas risadas. Quando o assunto acabou, o Soberano solicitou a conta para Cleópatra.

– Poderia nos trazer a conta, por favor? E se me permite um adendo, a senhorita tornou a manhã esplendorosa com sua educação e estonteante beleza, muitíssimo obrigado pelo excelente atendimento. A comida estava deliciosa! – disse o soberano de maneira cortês.
– Fico lisonjeada com tamanha cordialidade. Considere a conta paga, por conta da casa.
– De jeito nenhum, o dono não vai gostar e não quero lhe prejudicar.
– Eu sou a dona do Império, está decidido. – empinou o nariz, virou-se de costas teatralmente e adentrou o recinto, deixando os homens boquiabertos.
– Sr. Soberano, eu perderia a guerra por uma mulher dessas! Teria sido até mais fácil e, provavelmente, menos doloroso. – disse o mendigo.
– Mais respeito, Napoleão, mais respeito! – O Soberano bravejou. – Bom, acredito que é aqui que nos separamos, preciso ir para o trabalho e o senhor deve ter coisas importantes para tratar. Antes de partir, o senhor saberia me dizer onde há uma banca de jornal aqui perto?
– Tenho mais medo de três jornais do que de cem baionetas. Mas para todos os efeitos, no próximo quarteirão vai encontrar uma. – respondeu apontando a direção que o Soberano devia seguir. – E muito obrigado pelo café, fico te devendo uma. – terminou a prosa já se afastando.

De fato havia uma banca de jornal no próximo quarteirão. Não era nada convencional. Totalmente fora dos padrões. Era enorme, quase um monumento, com arabescos talhados em madeira e gôndolas que se exibiam aos transeuntes, apresentando livros, revista e jornais. Apesar de convidativa, estava vazia. Não havia ninguém sequer olhando despretensiosamente, como de costume.

– Bom dia, gostaria de um jornal. – disse o Soberano apontando para uma pilha que se encontrava ao lado do caixa.
– Que o papel fale e que a língua se cale. Um jornal saindo para vossa senhoria. – disse o jornaleiro.
– Obrigado. O movimento anda lento por essas bandas?
– As pessoas andam pouco interessadas e cada vez menos interessantes ao meu ver. Penso que aquele que lê muito e anda muito, vê muito e sabe muito; infelizmente as coisas mudaram, pouco se lê ultimamente, por consequência o conhecimento anda defasado.
– Concordo em partes. Hoje está sendo um dia atípico e nem passou do meio da manhã: conheci duas pessoas realmente interessantes logo cedo… e quanto à leitura… bom, smartphones, internet e todos os apetrechos tecnológicos, você sabe… ajudam, mas atrapalham… entendo um pouco sobre o assunto. – disse piscando para o jornaleiro que pareceu não entender o gesto.
– Fico feliz que seu dia esteja sendo atípico desta maneira, te invejo por isso. Já por estas terras, a monotonia que permeia meu ser certamente poderia matar, se fosse em outra ocasião, certamente.
–  E não sonha com outra atividade? Ainda há tempo de mudar.
–  O sonho é o alívio das misérias dos que as têm acordados. Sabe, contento-me com pouco, mas desejo muito. Nesta nossa realidade os livros suprem grande parte das minhas aspirações.
– Se lhe serve de consolo, dentre as três pessoas que conheci hoje, é de longe a mais interessante! – exclamou o Soberano.
– O louvor vale pela pessoa que o dá. Não o conheço, mas gostei de ti. O jornal foi pago com elogio. – disse o jornaleiro.
– Fico muito agradecido. Voltarei novamente e nas próximas vezes me deixará pagar, combinado? Como devo te chamar?
– As pessoas me chamam de Cervantes, mas como és meu amigo contemporâneo, me chame de Miguel.

Despediram-se rapidamente e o Soberano continuou seu caminho até o trabalho. Não estava tão longe da empresa; porventura isso foi uma das prioridades ao escolher o apartamento no qual morava. Odiava o trânsito caótico e só ia de carro para o trabalho por conta da segurança. Hoje percebeu o quanto estava perdendo ao ir para o trabalho trancafiado dentro de um automóvel.

A porta da empresa sempre aberta era um dos diferenciais exigidos por ele; todos eram bem-vindos. Passou direto pela recepção fazendo um aceno de bom dia para todos, mostrou seu crachá para o segurança e foi para o hall onde se encontravam os elevadores. Entrou no primeiro que chegou e apertou o botão rumo ao último andar. Dentro havia uma moça trajando um terninho chique e um crachá com nome: A. Earhart.

– Bom dia, senhorita.
– Olá. Dia lindo hoje, não?! O céu está radiante. – disse ela puxando assunto.
– Certamente. Dia lindo e com muitas peripécias vivenciadas logo pela manhã.
– Uma aventura só por si já tem valor, quem dirá muitas. Aliás, acredito que os imprevistos parecem atrair os aventureiros. Ou seria o contrário?! – piscou para o Soberano.
– Nunca me senti um aventureiro na verdade; jamais ousei viver algo que eu não tivesse total controle ou pelo menos uma ideia do resultado final. Ainda assim não me faltou coragem pra reclamar da rotina… desculpe o devaneio, estou um pouco filosófico hoje.
– Todos temos oceanos para sobrevoar, desde que tenhamos coragem para fazer isso. É inconsequência? Talvez… Mas o que os sonhos sabem sobre limites? – Deu de ombros na mesma hora que o elevador parou no vigésimo quinto andar. A moça então desceu se despedindo brevemente.
– Tenha um bom dia, senhor.
– A senhorita também. Por curiosidade, a letra “A” abreviada no seu crachá, seria de…?
– De Amelia.

A porta do elevador fechou separando os dois. Em segundos chegou ao seu destino. Assim que a porta se abriu percebeu que a secretária do andar não estava na mesa, como era de praxe; achou estranho, mas continuou devagar pelo corredor em direção a sua sala. As demais dependências estavam fechadas, provavelmente seus funcionários estavam em reunião, pensou consigo. A sala da vice-presidência estava aberta mas não havia ninguém dentro. Finalmente chegou à porta da presidência que estava entreaberta, da maneira como a deixou no dia anterior. Empurrou-a devagar e logo de cara viu que havia uma pessoa sentada em sua cadeira.

– Olá, quem é você? Acredito que essa cadeira me pertence. – disse o Soberano calmamente.
– Pertence a quem vence: veni, vidi, vici. Eu sou César. – disse o homem levantando-se imponente.
– César? Júlio César? Jura?! – Começou a rir sozinho enquanto batia palmas – Excelente, envolvente… que brincadeira excepcional, agora tudo se encaixa: primeiro o motorista não apareceu, depois conheci um Napoleão mendigo, uma Cleópatra…
– CLEÓPATRA?! De onde você conhece a minha esposa? – César foi visceral batendo na mesa com uma mão e apontando para o retrato de sua mulher com a outra.
– No café da manhã… ela me serviu… muito elegante, deliciosa… digo… a comida – gaguejou tamanho o susto que tomou com os gritos de César.
– Como se atreve? Vir aqui e falar da minha amada deste modo. Retire-se imediatamente da minha frente! Em outras primaveras um mero sinal meu e estaria tudo acabado para você. – gritou César exaltadamente com os olhos semicerrados de raiva.
– Espera! Eu sou o presidente da Rome Technology! Como ousa falar comigo dessa maneira? Retire-se você da minha empresa. Agora!  – o Soberano se recompôs, desafiando César e encarando-o com o peito estufado.
Alea jacta est! A sorte está lançada!

César olhava fixamente para o Soberano enquanto pedia pelo telefone que os seguranças subissem e retirassem o invasor de sua sala e posteriormente do prédio. Todo o procedimento foi rápido, truculento e prontamente obedecido.

Jogado literalmente na sarjeta o Soberano não estava entendendo absolutamente nada. Foi machucado e teve as vestes rasgadas; sentia-se desamparado; não encontrava um rosto amigo sequer; as pessoas passavam e não olhavam para ele; chegou a chorar por um tempo. Jamais em sua vida havia sido tratado de maneira tão desumana. Demorou para recuperar as forças, levantar e começar a andar rumo ao único lugar que se sentiria bem neste momento: sua casa. A volta para sua morada pareceu muito mais longa e demorada do que a ida.

Assim que virou a esquina viu que Napoleão estava sentado em seu papelão, coçando a orelha de modo despreocupado. O olhar dos dois se encontrou de longe e assim que o mendigo percebeu que o seu novo amigo se aproximava, acenou para o mesmo, moveu-se para o lado deixando livre um cantinho em seu papelão para que o Soberano pudesse sentar.

– Dia difícil, senhor? – perguntou Napoleão olhando as vestes rasgadas do amigo.
– Você não faz ideia! Está tudo muito confuso, não estou entendendo absolutamente nada. Parece que estou sonhando. Ou seria um pesadelo?! – disse o Soberano enquanto se sentava ao lado do Napoleão.
– A morte é um sono sem sonhos e a existência é mais uma maldição que um bem!

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Daniel Messias Gonçalves

 

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