PSICOTICOTERAPEUTA

– Socorro!

O grito abafado ecoou por um breve período, até se perder no espaço da sala no qual se encontrava. Não houve resposta nos primeiros dias; na verdade não sabia quanto tempo levou até que alguém respondesse; a luz clara ofuscava a visão e a percepção da realidade; as paredes estavam cuidadosamente pintadas e eram impecavelmente brancas; o piso de azulejo parecia um espelho de tão cintilante; havia apenas uma porta de metal na sala, com um cano à sua esquerda e uma caixa de som à sua direita. Do lado de fora era possível ouvir um gotejar ininterrupto; no começo, o som que as gotas provocavam era quase que imperceptível, mas conforme a ansiedade aumentava, o estampido se tornava mais audível, ressoando como batidas de tambor: tum, tuM, tUM, TUM. Era enlouquecedor.

– Socorro! – tentou novamente pedir auxílio.
– Pare de gritar. Ninguém, além de mim, vai ouvir você aqui. – respondeu a voz calma que saía pela caixa de som presa à parede.
– Minha família tem dinheiro, só não me machuque, por favor.
– Meu caro, não quero seu dinheiro. Todo mundo sempre pensa que a questão é dinheiro… não entendem o conceito da tortura.
– Quem é você? O que você quer de mim? Socorro!
– Já falei pra parar de gritar.

Houve silêncio; as gotas ao fundo também pararam por um breve intervalo; um longo barulho de descarga; novamente as gotas caindo.

– Desculpe, estava no banheiro. Onde paramos? – disse uma voz bem-disposta.
– Você está animado? Como você pode ficar assim? Olha o que está fazendo comigo!
– Me desculpe se me fiz entender errado. Não estou animado… talvez um pouco, mas também estou ansioso. Quero que saiba que me dói fazer o que estou fazendo, mas você precisa compreender o que me tornei, e a razão disso tudo. Aliás, devo lhe dizer que apesar de parecer algo ruim,  existe um lado positivo: você é o último da minha lista e eu estou mais eficiente, o que significa que você deve se redimir e chegar ao fim antes dos outros. Não é ótimo isso?! Eu acho libertador.
– Como assim chegar ao fim? Você vai me matar? Se eu sair daqui acabo com a sua raça, desgraçado! – gritou o homem.
– Quem você pensa que eu sou? Matar? Ninguém falou em matar, sou uma pessoa civilizada, tenho aversão a esse tipo de violência. E, por favor, não me ameace. Já não basta tudo o que me fez passar. – disse com uma voz desgostosa e pausada.
–  Espera! O que eu te fiz passar? Eu conheço você?
– Há anos que não nos víamos, desde a época da escola, até você entrar alguns meses atrás na lanchonete em que trabalho. Quando te vi não acreditei: a pessoa que mais me fez sofrer na infância. Fiquei esperando que me reconhecesse, mas não aconteceu. Dia após dia você entrou e saiu sem sequer me notar. Foi como se eu não existisse. Depois de todo sofrimento que passei em suas mãos e na dos outros, você sequer se lembrou de mim. O que sou hoje, aquilo que me tornei…
– Mas eu nem sei quem é você, seu lunático! – interrompeu o homem.
– Não atrapalhe minha performance, ensaiei bastante pra esse momento. Continuando: o que me tornei, em partes, é responsabilidade sua. Nunca o culpei de fato e sempre achei que você era ingênuo, assim como eu também era. Até o dia em que vi você humilhar uma pessoa na lanchonete, da mesma maneira que fazia comigo na infância. Então percebi que você é uma pessoa má. Foi neste momento que resolvi tomar uma atitude. Então comecei a te acompanhar de perto e descobri coisas bem interessantes…
– Espera, você me seguiu? Seu psicopata!
– Veja bem, tudo o que estou fazendo é para te ajudar a se tornar alguém melhor. Pense nisso como sendo uma terapia. O que acha de começarmos?
– Começar o que? Seu filho da puta, o que vai fazer comigo?
– Não adianta ficar agressivo! E, já que perguntou, vamos começar com ratos. Notei que é o seu maior medo, certo?

Um barulho pelo encanamento indicava que eles estavam a caminho. Pela intensidade do ruído, parecia que vários animais estavam a caminho, mas apenas dois apareceram: eram enormes, cinzas com rabo pelado. Pareciam bem famintos e assustados.

– Tira eles daqui… socorro. Sai de perto de mim! – disse chutando um dos animais, que bateu na parede, produzindo um barulho oco. O animal pareceu não se importar muito com o ocorrido e voltou à espreitar de perto o humano.
– Opa, esqueci de dizer as regras da brincadeira, falha minha, me perdoe. Regra número um: para cada animal machucado, mais dois entrarão na sala onde você está, portanto, não seria interessante você machucá-los. Regra número dois: caso ainda não tenha percebido, seus sapatos foram trocados por outros mais macios e besuntados com creme de carne. Devem estar bem apetitosos e, como deve saber, ratos comem praticamente qualquer coisa. A brincadeira consiste em deixar os ratos comerem os sapatos sem que você os tire do pé. Vamos trabalhar esse seu medo.

O desespero sentido pelo homem ao ver os ratos roendo seus tênis sem poder fazer nada durou poucos minutos, mas quando se está com pavor, o tempo perde seu valor real, deixando de fazer sentido. Os gritos ecoavam, o suor escorria em conjunto com o choro, acompanhado de soluços altos que vez ou outra sincronizavam com a música clássica que o torturador colocou para essa parte da sessão. Os animais estavam afoitos, devorando cada pedaço do calçado enquanto produziam pequenos guinchos de prazer. Parecia que não comiam há dias. O corpo robusto dos bichos estremecia a cada mordida, em concomitância com o pânico sentido pelo encarcerado.

Assim que as meias do torturado começaram a aparecer, os ratos pararam de morder e se afastaram cambaleando, até que finalmente entraram em um sono profundo. Tudo parecia bem calculado; o timing para os ratos dormirem antes que pudessem machucar o homem foi perfeito; a música parou assim que o segundo rato desmaiou.

– Bravo! Estupendo! Que espetáculo! E os animais, então? Eles entraram na cena. Simplesmente maravilhoso. Como se sente? – perguntou a voz entusiasmada pela caixa de som presa na parede.

Não houve resposta. Era possível ouvir somente um choro baixo e íntimo que aos poucos foi diminuindo até parar. O olhar de terror estava estampado na face do sequestrado.

– Converse comigo, homem. Preciso saber quando poderemos continuar, você é o protagonista disso tudo.
– Me deixe ir embora, por favor. Juro que serei uma pessoa boa. Eu sei que não sou bom, que machuco as pessoas, mas vou melhorar! É isso que quer ouvir? É por isso que estou aqui? Pra entender o mal que tenho feito com as pessoas? Eu entendi… por favor… – implorou o cativo.
– Mal começamos e já está implorando para ir embora?! Estou muito desapontado com você. Imaginava que se sairia melhor que os outros, já que era o mais forte e agressivo do seu grupo e se mostrava muito corajoso. Você era o líder, não era? De qualquer forma, tenho certeza que, quando se for, será uma pessoa melhor. E para todos os efeitos, não é isso que quero ouvir de você.
– Então o que quer ouvir de mim? Quer um pedido de desculpa? Me perdoe, por tudo que fiz, por todo mal que lhe causei.
– Não posso aceitar seu pedido de perdão, não agora. Sequer lembra quem sou. Muito bem… aparentemente está se sentindo um pouco melhor, então vamos prosseguir. Pelo que pesquisei você é bem seletivo e sistemático quando se trata de comida. Não prometo que sua próxima refeição será tão apetitosa quanto o tênis foi para os ratos, mas será bem intrigante. A regra consiste em comer o que eu lhe enviar sem vomitar. Caso regurgite, mandarei outros pratos até que consiga ingerir um inteiro, sem passar mal.

Na mesma hora em que parou de falar uma iguaria passou por debaixo da única porta da sala, em um vasilhame refinado. De longe era possível ver que a comida se mexia e exalava um cheiro desagradável. Já de perto veio a certeza que aquilo seria bem indigesto. As larvas dançavam sobre e no meio do sanduíche putrefato; as bordas esverdeadas indicavam que a comida estava estragada há dias. O homem vomitou de imediato, assim que bateu os olhos no lanche.

– Vou desconsiderar esse vômito, uma vez que ainda nem tocou no alimento. Vale ressaltar que adicionei ao lanche o mesmo molho de carne que coloquei nos seus sapatos, para facilitar a degustação. Se puder começar logo, eu agradeço.

Sabendo que não havia muito o que fazer e que estava à mercê do sequestrador, respirou fundo e pegou o lanche com as mãos. Encarou por uns segundo as larvas e empurrou para dentro do pão aquelas que tentavam fugir, para que não precisasse ficar olhando para elas. A primeira mordida foi indescritivelmente nojenta; sentiu o sabor amargo do pão e a crocância dos animais ao serem esmagados pelos dentes. O golfo subiu assim que o primeiro pedaço do lanche chegou ao estômago, mas conseguiu segurá-lo na boca e engolir novamente, deixando um gosto ácido na boca. Novamente respirou profundamente e deu a segunda, terceira, quarta mordida, mastigando o menos possível antes de engolir. Assim que chegou à metade do lanche a língua ficou dormente. Estranhou um pouco mas aproveitou para terminar a pesada refeição. Mesmo não sentindo o gosto, a mera imagem que lhe veio à mente, das larvas sendo mastigadas e engolidas, embrulhava o bucho. Foi a coisa mais asquerosa que já fez na vida. É algo que jamais esqueceria.

– Muito bem! Senti mais firmeza desta vez. Apesar de eu ter ajudado no processo mais uma vez ao colocar jambu no caldo de carne, você foi realmente bem. Eu mesmo não faria melhor. Parabéns! Como já disse antes, estou aqui para te ajudar e, como não quero que fique doente, o aconselho a tomar o antibiótico que estou enviando; a este você não é alérgico, não lhe fará mal.

Uma cartela do remédio passou sob a porta e foi prontamente tomado pelo homem. Estava com tanta ânsia que se dissesse uma única palavra naquele momento, ou se não mantivesse a respiração controlada, vomitaria todo o lanche.

– Agora que está devidamente alimentado e medicado, avancemos para mais uma brincadeira. O que você acabou de tomar, na verdade, foi um laxante bem forte e não antibiótico, digo… o antibiótico eu coloquei no molho de carne junto ao jambu, então você está seguro, de certo modo. Acredito que ainda não se perguntou como sei quando você terminou um desafio: na caixa de som há uma pequena câmera. Dá um tchauzinho pra mim, não tem mais ninguém aqui, me sinto sozinho… não?! Sem tchauzinho? Seu insensível. Ok… então as regras são as seguintes: você vai ficar de lado para a porta, sem nenhuma roupa e fará suas necessidades fisiológicas enquanto estou filmando. As imagens serão passadas, em privado, para as pessoas que você fez mal durante a infância e para algumas que descobri agora na sua vida adulta. Haverá um áudio explicando o motivo desta humilhação que você está passando, para que não tenham pena ou remorso ao compartilhar.  Se elas forem tão malvadas quanto você, o vídeo deve cair na internet em pouco tempo. Aliás, o laxante deve estar pra fazer efeito. Caso não queira se sujar, esta é uma boa hora pra tirar a roupa.
– Por favor, eu te imploro, não faça isso, não me exponha desta maneira, vai arruinar minha vida. – gritou em pânico.
– Como te expliquei, não tenho o dia todo e ainda estamos só na metade do processo. Há um cronograma a ser seguido.
– Chega, te suplico! Já entendi a mensagem, juro que serei uma pessoa boa, só me deixe em paz! Por favor…

Um alarme alto tocou e a porta de ferro se abriu automaticamente.

– Bingo! Era exatamente isso que eu queria ouvir, “me deixe em paz”. Essa foi a frase que eu mais falava a cada tortura psicológica que você e seus amigos me faziam passar. Tudo o que me tornei é graças a vocês, que nunca ouviram o meu rogo. Foram inúmeras as súplicas não atendidas, mas para provar que não sou tão psicótico quanto você, atenderei o seu clamor. Está livre para ir. O banheiro é a próxima porta à esquerda.

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Daniel Messias Gonçalves

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