FINIS LONGA, VITA BREVIS

A última memória que tinha era de luzes brancas incômodas, o suor quente que escorria pela têmpora, as pessoas correndo ao seu redor e um som mecânico constante e chato ao fundo; depois tudo ficou escuro.

A cabeça dói e a vista embaçada dificultam focar no ambiente ao seu redor. O chão é macio e pegajoso ao mesmo tempo. Um misto de calma e ansiedade permeiam seu ser, enquanto uma necessidade de seguir adiante toma conta de seus atos. Não parece estar no controle mas ao mesmo tempo sente que tudo lhe é permitido. Com um caminhar leve segue a única direção possível. Está em um corredor longo, que se perde no horizonte, com paredes estreladas. Há vários quadros decorando. Lembra muito a primeira casa que morou. Atrás dele não há nada, só a escuridão imaterial que o acompanha a cada passo. À frente a incerteza de onde iria chegar.

Sem pretensão, peregrina observando as pinturas. As primeiras trazem consigo sentimentos de euforia e plenitude, talvez por serem abstratas. A maioria parece muito uma com a outra, com pequenas diferenças de cor e tamanho dos traços. Tudo indica que foram pintadas pela mesma pessoa. Já as molduras se diferem muito e isso incomoda um pouco. Muitas artes lindas estão com moldura desgastadas e simples.

– Como algo tão bonito e sublime pode ser tratado com tamanho desprezo? – disse à si mesmo.

Aparentemente há muito à percorrer, então resolve parar para ver com apreço somente aquelas pinturas que realmente chamarem sua atenção. Acelera o passo e apenas olha de relance a grande maioria das obras. Percebe que conforme percorre o corredor, as  mesmas vão ficando menos abstratas e começam a ganhar formas mais concretas. A sua esquerda apresentou-se um quadro que retrata uma criança com uma pipa. Era a primeira pintura que representava algo tangível. Opta em fazer uma pausa para contemplar a obra. Gostava de empinar pipa, pensou consigo, mas deixou de fazer isso depois que atingiu certa idade. Deu de ombros, afinal de contas parou de fazer várias coisas que gostava quando amadureceu. Por alguns segundos ficou absorto olhando os detalhes das pinceladas e de como elas formavam cada elemento, quando uma voz atrás dele tirou sua concentração.

– Olha o que eu sei fazer! – disse o menino com uma bola dentro do quadro de moldura dourada.
– Quem é você? – disse o homem, assustado.
– Quem somos nós?
– Eu não sei, como posso saber. Quer dizer, eu sei quem eu sou, mas como posso saber quem é você?
– Não faz tanto tempo assim. Deveria lembrar! – indagou a criança.
– Lembrar do que?
– Você quer que eu te lembre o que você deve lembrar? Você é estranho.
– Olha como fala garoto. Nunca te ensinaram que deve respeitar os mais velhos?

Nessa hora o menino deu-lhe as costas e foi brincar com sua bola, sem se importar em continuar a prosa. Indignado com tamanha falta de respeito virou-se para o corredor e com passos largos tomou seu rumo. A tinta ganhava vida conforme seu caminho era traçado e algumas pessoas pintadas nos quadros o observavam, umas de maneira despretensiosa, enquanto outras acenavam ou tentavam chamar a atenção do visitante com algum diálogo.

– Ei, babaca! – chamou um adolescente de moicano e casaco de couro.
– Não é possível que todo mundo daqui seja mal educado.
– Você não pode passar correndo sem nos dar atenção. Tem gente esperando a vida inteira pela sua visita e você faz essa desfeita?
– O que vocês querem de mim?
– Como se tivesse algo pra oferecer, não se enxerga mesmo. Aliás, você mudou muito, tá estranho. Virou um idiota!
– De novo essa história de estranho… e como assim mudou muito? Eu nem te conheço.
– Além de idiota tem amnésia. Quer saber, segue seu rumo, você não tem mais jeito.

O adolescente no quadro colocou os fones de seu walkman nos ouvidos e ignorou totalmente a presença do visitante, que um pouco ressentido com a indiferença seguiu pelo corredor com a cabeça baixa. Não demorou muito até ser chamado por outra figura. Desta vez era um homem de meia idade, trajando terno preto risca de giz; parecia ser um executivo.

– O senhor pode me servir um café? Faz muito tempo que estou esperando já! – disso de forma brusca.
– Você sabe com quem está falando? Acha que sou seu empregado?
–  Só te pedi um café. Desculpe se lhe soou rude.
– Tudo bem, sem problema, mas precisa melhorar essa maneira de tratar os outros… e onde posso arrumar esse café, não vejo nenhum por perto.
– Só pedir no quadro de trás, que você passou sem sequer olhar.

O visitante virou-se para observar o quadro posterior a ele, e encontrou um jovem, um pouco mais novo que o executivo.

– Um café quentinho saindo para o senhor do quadro à frente. – disse o rapaz estendendo a mão com um xícara.
– Obrigado – agradeceu o visitante passando o café de um quadro para o outro.
– O senhor gostaria de um? Se fosse você aceitaria, acabei de fazer e além do mais, seu processo todo pode demorar.
– Que processo?
– Acho que ainda não percebeu o que está rolando, né?!
– Você morreu. Quer dizer, pelo menos está morto neste momento. – disse o executivo calmamente enquanto apreciava o café.
– Como assim? – indagou o visitante.
– Morreu, bateu as botas. No seu caso foi o carro… pegou o trocadilho? Mas relaxa, talvez você volte, tem uma galera lá embaixo tentando te ressuscitar. – falou de modo descontraído o rapaz.
– Meu Deus! Não é possível, mal aproveitei minha vida. E minha família, o que será dela?
– Ixi, começou a ladainha, não falei pra você?! Sabia que quando morrêssemos seria essa choradeira. Você traçou um caminho sem sonhos – alfinetou o rapaz piscando para o executivo.
– Já vai começar aquela mesma conversa, de que virei um chato e workaholic. Pode parar com isso! Tenho minhas obrigações.
– Eu também. Trabalho em uma cafeteria para pagar o faculdade e sobreviver. Mas você esqueceu que não é o dinheiro que nos impulsiona pra vida, são os sonhos.

A discussão parou quando os soluços do visitante começaram a ecoar pelo corredor. Ambas personas se entreolharam, deixaram as diferenças de lado e começaram a tentar acalmar o homem, que agora estava em posição fetal, deitado no chão.

– Não é o fim do mundo e de certo modo, nem o fim da vida. Pelos menos não da vida que você conhece. Daqui pra frente tudo será possível, a vida que terá nem se compara com…
– Ei, bico fechado! Se ele ainda não atravessou a porta ainda há chance, então não podemos falar o que vem a seguir. – o executivo interrompeu o barista.
– Como assim ainda há chance? Posso voltar à vida?
– Existe essa possibilidade. Se isso ocorrer caberá você decidir qual porta atravessar. – falou o executivo.

Mal o homem de meia idade terminou de falar,  duas portas se fizeram presente, uma de cada lado da parede. O visitante sabia o que fazer. Sem pestanejar levantou e escolheu o seu destino.

A claridade castigou seus olhos como se fosse a primeira vez que os usava; uma música agradável agraciou seus ouvidos; a temperatura estava muito agradável. Jurava que tinha escolhido a porta da vida.

Tudo estava perfeito demais para ser o mundo que já conhecia. Foi quando escutou uma porta abrindo e passos largos sendo dados no mesmo ambiente em que ele se encontrava. Os passos trouxeram consigo uma voz áspera que não se recordava, mas a conversa estava distante e não conseguiu distinguir as palavras.

– Boa tarde. Os resultados dos exames sairam.
– Qual é o quadro dele, doutor? – perguntou a esposa do moribundo.
– Está estável, mas o acidente provocou danos irreversíveis em uma parte do cérebro, mais especificamente no hipocampo e na área responsável pela imaginação.
– E essa área influência nas memórias dele? Ele se lembrará de mim, da família dele?
– Sim, lembrará de tudo anterior ao acidente. A questão é que a partir de agora a imaginação estará mais presente em seus pensamentos, como devaneios e em alguns casos, pode não saber diferenciar a realidade da ilusão…
– Olhe, ele parece estar recobrado a consciência. – a esposa disse de sobressalto, interrompendo o médico.
– Estou de volta! É uma nova chance! Tenho tanto pra contar, que experiência fantástica que tive! – exclamou alegre olhando para a esposa e para o médico.

O médico e esposa se entreolharam ressabiados enquanto o homem acamado os contemplava com um sorriso vesano estampado no rosto.

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Daniel Messias Gonçalves

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